Batom S2

Uma amiga de Vóvis passa batom e percebe o meu olhar e o de mamãe fixos nela, admirando sua vaidade.

–  Eu adoro batom! – ela se dirige para nós – se eu não passo parece que estou pelada.
– Que bom, é bom ser vaidosa, se sentir bonita, faz muito bem. – mamãe apóia.
– Sempre gostei. – ela continua – Casei com um homem que não me deixava usar batom, nada de maquiagem. E eu obedecia porque naquela época… sabe né? A gente obedecia. Vivi com ele por anos, tive filhos e ele não me deixava nem sair de casa. Dizia que mulher direita não fazia essas coisas. Se éramos convidados para ser padrinhos de casamento, ele ia sozinho. Dizia que mulher dele não tinha que aparecer, tinha que cuidar dos filhos.
– Que traste, hein? – mamãe comenta.
– Pois é. Mas já morreu, graças a Deus. – ela diz com rancor.
– Morreu?
– Morreu num domingo. Na segunda levantei da cama, peguei meu melhor batom e passei. Minha mãe me disse “ele não gostava que você passasse batom…”, e eu respondi “quem morreu foi ele, não eu”. Passo batom todos os dias.

 

 

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