#LaVemTextao

Eu cuidei dela em uma fase em que considero a melhor e a pior da doença (se é que podemos dizer que tem alguma fase boa no Alzheimer). Isso porque foi no início, quando ela ainda tinha consciência das coisas, nos reconhecia e havia nexo e graça em suas respostas. Mas por ter consciência, ela também sofria por saber que estava doente. Foi também a fase de aceitação da família, do medo, da adaptação a uma nova realidade que era difícil demais de entender e suportar.

Para quem recebe o diagnóstico de seus pais e avós, digo: “aproveite, pois esse tempo não volta e ele é, apesar de muito difícil, o tempo mais rico, precioso e rápido que você terá ao lado de quem ama”. Digo isso porque cada vez mais tem sido difícil visitar Vóvis. Na maioria das vezes por causa da correria mesmo, já que só tenho o fim de semana para visitá-la e resolver todo o resto da minha vida que, durante a semana, o trabalho consome todas as minhas energias. Mas também por um pouco de medo, confesso. De chegar lá e ver sua piora, de vê-la magra como uma caveira, sem reação, com o olhar perdido e sem brilho e a cabeça caindo nos meus ombros ou nos da minha mãe. Ou ao contrário, agitada, nervosa, falando sem parar e nenhuma palavra com sentido, puxando e dizendo “vamos, vamos embora” para um lugar que não chega nunca e sequer existe. A primeira vez em que mamãe me contou que Vóvis perguntou “como é que come?”, fiquei duas semanas sem coragem de vê-la. Sabia que estava chegando uma nova fase.

Quando reposto histórias de dois ou três anos atrás, percebo como a piora dela foi rápida. Como antes ela respondia a situações com agilidade e como hoje ela sequer consegue segurar um copo de água. Isso assusta. A rapidez com que a piora chegou nos faz pensar em como será daqui a alguns anos. E por mais que me sinta na obrigação de vê-la, tem dias em que é difícil. Difícil enfrentar isso e depois ter pique para sair sorrindo no sábado à noite encontrar amigos. Difícil o peso na consciência de não ir ver quem sempre ajudou todo mundo mas hoje tem poucas pessoas com quem contar, como ela tem. A maioria sumiu, simplesmente não se importa ou dá desculpas para não ajudar.

Certa vez, conversando com uma pessoa de fora da situação e desabafando sobre como alguns parentes simplesmente te deixam na mão, ouvi a seguinte frase:

– Você não pode julgar. Cada um tem seus problemas. Às vezes é difícil para essa pessoa visitar sua avó e ver ela nessa situação, então ela simplesmente não vai. Tenha um pouco de pena.

Respirei fundo, avaliei dentro do meu coração (já um pouco calejado desse tipo de comentário “de um bem falsificado para inglês ver”) e da minha mente (já de saco cheio), e respondi:

– Difícil é não julgar estando dentro da situação. Difícil é não julgar enquanto você vê sua família aos pedaços, chorando, pois precisam dormir e não podem, brigando, difícil é trocar fraldas sujas, implorar por banhos, aguentar gritos e empurrões sem merecer e tentar manter a calma, pois afinal, nessa história ela também não tem culpa. Difícil é aguentar escândalo em médico, repetir zilhões de vezes as mesmas perguntas, ver alguém que você ama tanto indo embora devagar e não poder fazer nada, difícil é acordar com o coração acelerado pois a casa está de cabeça para baixo, numa bagunça que envolve de cocô à comida no chão. Difícil é aguentar palpite de um mundo que se julga médico mas nem faculdade deve ter. Ou pós-graduação. Ou mestrado (piada interna para a família). Só consigo sentir pena mesmo de quem passa por isso e encara, de quem passa por isso e está lá, desmoronando ou não, mas está lá. De quem não encara e some, que Deus me perdoe, mas não sinto a menor pena. Acho fácil, acho inclusive, covarde se é uma obrigação sua. Se é sua mãe ou pai. Por que quando você deixa de fazer a sua parte, sobrecarrega outra pessoa que está fazendo a dela e esse peso não vira apenas um incômodo, é esmagador. Seu discurso é muito bonito, mas para quem está dentro da situação, não funciona. Espero que você nunca passe por isso, mas se um dia passar, vem me contar se mudou de ideia.

Por isso, a consciência pesa naqueles dias em que não visito Vóvis por não

estar bem, mesmo sabendo que é um direito meu. Mas pesa, pois sei que quem está sempre lá também não se sente bem e tem dias de derrota, mas está lá. Também sei que cada momento que passei cuidando dela, chorando ou morrendo de rir, está guardado em algum lugar no fundo do seu olhar perdido. Pois quando pergunto quem eu sou e ela não sabe meu nome, responde “um anjo tão bom pra mim!”. ❤

#desabafo #alzheimer

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